Araci: da destruição à preservação da memória

Só o cemitério construído pelo capitão José Ferreira de Carvalho, fundador da vila que daria origem à cidade de Araci, foi preservado. A igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição do Raso, concluída em 1859, foi demolida ao completar 100 anos pelo prefeito Erasmo Oliveira de Carvalho.

Erasmo, inicialmente, apoiou a proposta de reforma de duas das três paredes frontais do templo para o festejo do centenário. Depois, alegando risco de desabamento, riscou do mapa o marco da história do município.

A ameaça de desmoronamento foi fake news, propagada para que interesses políticos e econômicos prevalecessem. Os argumentos contrários foram desprezados e o povo acabou sendo dobrado aos poucos.

A construção de uma capela para abrigar a imagem da Virgem Maria, trazida de Portugal para a inauguração da Matriz, e outros objetos sacros fez os fiéis esquecerem as divergências. Quando a nova igreja foi entregue em 1968, a prefeitura passou para o povo a responsabilidade pelo acabamento, descumprindo a promessa de custear todas as despesas.

Em uma cidade cuja a política era centrada na desmemória, as poucas pessoas que lutavam pela preservação do patrimônio arquitetônico e cultural não conseguiam derrotar as forças antagônicas, formadas por políticos, comerciantes e até religiosos. Foi o que aconteceu com Maura Mota de Carvalho, tataraneta do capitão e autora do livro “História de Araci” (1812-1956). Ela chegou a escrever que se fosse necessário ofereceria “a vida em holocausto” pela permanência da Matriz no antigo local.

O INÍCIO DA REAÇÃO

A inauguração do Centro Cultural de Araci pelo professor e ator Anatólio de Oliveira, em 1984, foi o primeiro passo para a virada em favor da preservação da arte, cultura e educação. Esse posicionamento inspirou outras inciativas como o site Vila do Raso, obra do também professor Pedro Juarez Pinheiro, 37 anos.

Apoiados por intelectuais e artistas, Anatólio e Juarez, usando os recursos disponíveis em suas épocas, reuniram acervo representativo dos 208 anos de história de Araci. Os 13 mil livros, além de documentos, fotos, livros, objetos antigos e trabalhos acadêmicos são fontes permanentes de consulta para estudantes de todos os níveis e moradores da região.

Professor, ator e ex-chefe do departamento de teatro da Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia (1970-72), Anatólio atuou em “Cruz na Praça”, o segundo curta-metragem do cineasta Glauber Rocha. O filme é considerado o primeiro feito no Brasil tendo a homossexualidade como tema. Segundo registros da Embrafilme, a obra está “irremediavelmente perdida”, pois o negativo original foi destruído e não há cópias.

Anatólio voltou para a terra natal após se aposentar. Ele fundou o centro cultural em um imóvel de sua propriedade na rua Barão de Jeremoabo, em dezembro de 1984. Com muitos amigos na capital (Salvador), a 221 quilômetros de distância, o professor organizou uma campanha de arrecadação de livros.

A atriz e então diretora da Escola de Teatro da Ufba, Nilda Spencer, foi uma das principais colaboradoras. Ela participou de eventos, doou livros e escreveu artigos em jornais da capital falando sobre a iniciativa. Fez tanto que ganhou o título de madrinha do espaço, cujo objetivo é preservar a história da cidade, incentivar a cultura e a educação.

A venda do imóvel pelos herdeiros, após a morte de Anatólio de Oliveira, fez o centro cultural se mudar, em 2003, para local mais amplo na avenida Sete de Setembro. Lá, funcionava um clube recreativo ideal para exposições, eventos de cultura popular e meio ambiente, oficinas de artes e teatro, lançamentos de livros, rodas de leitura e exibição de filmes.

A biblioteca comunitária hoje está passando por processo de catalogação digital e de informatização do setor de empréstimos e devoluções. A partir de novembro, o catálogo de títulos estará disponível na internet, incluindo as obras de literatura e poesia – as mais procuradas -, teses e dissertações sobre temas relacionados a Araci, publicações infantis e livros raros de direito e religião, editados em 1870.

O centro também mantém um museu com objetos religiosos da igreja demolida, móveis antigos, utensílios domésticos, baús de couro, relicários, instrumentos musicais, fotografias, documentos da história política e obras de arte – dentre elas um desenho em bico de pena do renomado artista plástico cearense Aldemir Martins (1922-2006). Outras peças se espalham pelo interior e pelo entorno do centro cultural.

Na frente do prédio foram colocados o cruzeiro que ficava diante do primeiro templo da cidade, um carro de boi e maquinário para produção de farinha. Na área interna, está a bomba de água à manivela, instalada no início do século XX, na praça principal.

O museu recebe frequentemente turmas escolares e integra o roteiro anual de visitações do Colégio Adventista da Bahia, que inclui as cidades de Monte Santo e Canudos.

“Araci não tem patrimônio casario nem igreja históricos, mas o acervo da biblioteca e do museu superam os de outras cidades. É mais fácil pesquisar sobre Araci do que Serrinha e Tucano, municípios aos quais pertencemos. Tucano, por exemplo, tem muita coisa antiga, mas descentralizada.” – diz o professor de português Pedro Juarez Pinheiro, ex-presidente do centro cultural, cujo segundo mandato terminou em abril deste ano. O cargo atualmente é ocupado pelo professor Jean Márcio Oliveira.

Apaixonado por história, Pedro teve a ideia de criar a página “Fotos antigas de Araci BA” no Facebook. Acabou formando um acervo significativo graças as pesquisas que desenvolvia desde 2013. O material físico do acervo, apesar de público, limita o acesso de pessoas de outras cidades e estados.

Pedro Juarez, então, resolveu criar o site Vila do Raso (www.viladoraso.com.br), com a ajuda do escritor Franklin Carvalho, da historiadora Ana Nery Carvalho Silva e do documentarista e publicitário Danilo Victor. O professor e empresário José Nilton, uma espécie de mecenas da cultura no interior baiano, bancou os custos da feitura da página eletrônica.

“O Vila do Raso é independente, não tem parceria com a prefeitura. As atualizações ocorrem à medida que encontramos novidades. Não somos um site de notícias. Somos um repositório de documentação histórica e trabalhos acadêmicos e fonte de pesquisas genealógicas, monografias e dissertações” –, conta Pedro.

Foram necessários décadas para Araci deixar para trás a sanha de destruição da memória e investir na preservação de sua história. Que sirva de exemplo para outros municípios do sertão, do Nordeste e do Brasil.

Serviço:

Centro Cultural de Araci Anatólio Oliveira funciona de segunda à sexta-feira, das 8h às 12h e das 13:30h às 17:30h.

Endereço: Avenida Sete de Setembro, 160 – Centro.

Email: centroculturaldearaci84@gmail.com

Telefone: Não possui

Autor do texto: Paulo Oliveira

Fonte: Meussertoes

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *