Artigo: “La Casa de Papel” e a paixão pelo poder

Segundo a revista Exame, La Casa de Papel foi a série mais assistida no Brasil em 2019, sendo a produção de língua não inglesa mais vista na Netflix, conquistando 65 milhões de usuários em seu lançamento. Particularmente eu não me interesso por programas da moda, mas a poucos dias, percebendo o impacto que um bando de assaltantes sequestradores têm sobre uma grande massa de gente, e aproveitando que a quinta e última temporada chega à plataforma em 2021, resolvi assistir a série com olhar de pesquisador.

Depois de conquistar as telas, a série espanhola ganhou espaço em camisetas, sandálias, mochilas, canecas e sabe-se mais o que. Então minha curiosidade foi ao nível estratosférico. O que faz pessoas quererem carregar a galera da bandidagem em seu corpo? Então iniciei minha apreciação, não como crítico de arte, mas sim como psicólogo que sou e aqui vou explanar minhas conclusões.

De forma resumida, ao menos o que se mostra na superfície, é a sensação de que o bando vestido de vermelho representa cada cidadão mundial massacrado pelo sistema, mas que, no caso do bando, resolveu se emancipar. Quem é bom e quem é mal se torna uma premissa importante em toda a trama – o sistema é mal (dentro disso está a polícia), os revolucionários contra o sistema são bons (no caso ladrões sequestradores). Com isso parece que a galera da bandidagem acaba conquistando o coração do povo nas telas. Se no mundo os milionários (donos do sistema) mantem seu poder oprimindo, então roubar e sequestrar se torna totalmente legítimo para quem é oprimido.

Os bandidos são seres humanos e todos  temos bem e mal em nós, mas o que realmente pode estar por trás de uma atitude de louvor às ações deles? Para mim a resposta é essa: Tudo tem a ver com poder. Desejo de obter, de se destacar, de estar por cima da carne seca, desejo, desejo… Não tem nada com vingar-se do sistema e essas balelas. Tem relação com a ambição humana. O oprimido se tornará sempre opressor enquanto o amor ao poder existir. Aqueles que roubam a casa da moeda em nome da justiça social (para si mesmos, claro) também sequestram pessoas, o que não deixará nunca de ser um ato de violência.

Mas para que ter o trabalho de pensar nisso desta maneira? O telespectador goza com o desejo ardente de ver o sucesso da empreitada. Milhões e milhões de euros! Dinheiro pra ter o prazer que se quer! O coração do espectador se liga ao do ladrão. É pessoa como eu, alguém pensa. Mas no fundo a verdadeira face desse fascínio é a fantasia de sair de uma vida comum para desfrutar de uns milhões nalguma ilha do pacífico sul.

Assusta-me o fato de pessoas saírem mundo afora sustentando imagens de personagens desse tipo. A busca por alcançar o que se quer a qualquer custo parece estar ganhando força nas mentes humanas. Mas nunca será uma revolução em favor do que é justo, será sempre uma revolução em nome do desejo particular.

La Casa de Papel testifica que o ser humano, em função de seu desejo, chama ao mal bem e ao bem mal, dependendo das circunstâncias. Não é uma questão de justiça, é sim desejar estar no pódio do poder.

Artigo de Alec Saramago – Psicólogo e Palestrante

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