Rui Costa confirma saída da Casa Civil para disputar o Senado pela Bahia

24/03/2026 12:47 • 7m de leitura

O ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT), confirmou, nesta última segunda-feira (23), que deixará o primeiro escalão do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no fim de março para concorrer a uma vaga no Senado pela Bahia nas eleições de outubro. Em entrevista à TV Record, o ex-governador baiano afirmou que realizará uma reunião final com o presidente para apresentar um balanço da gestão, incluindo a execução de 80% do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e garantir uma transição institucional sem rupturas na coordenação política do Planalto. Rui Costa aproveitou o anúncio para rechaçar a tese de desgaste do grupo que governa a Bahia há 20 anos, afirmando que a oposição liderada pelo ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil) terá mais dificuldades do que em 2022. O ministro defendeu seu legado administrativo no Estado e no governo federal, destacando os índices de emprego e o aumento da massa salarial como trunfos eleitorais. Ele também confirmou que a diplomacia brasileira trabalha para um possível encontro, em abril, de Lula com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Reconfiguração política e sucessão na Casa Civil

A saída de Rui Costa abre uma lacuna central na articulação do Palácio do Planalto. Como braço direito de Lula, ele foi responsável pela retomada de obras estruturantes e pelo gerenciamento de crises entre ministérios. Sua ida para a disputa na Bahia busca consolidar a hegemonia petista no Estado, possivelmente formando uma chapa “puro-sangue” ou “puro-governadores” com o senador Jaques Wagner (PT) e o governador Jerônimo Rodrigues (PT) – ambos buscarão a reeleição em outubro. O anúncio antecipado visa estancar especulações e permitir que seu sucessor seja escolhido com calma pelo presidente. Rui Costa deixa o cargo com a marca de um “gerente” rigoroso, focado em resultados técnicos, mas com críticas de demais ministros. O petista terá o desafio de converter essa imagem administrativa em votos na Bahia, onde enfrentará uma oposição, liderada pelo vice-presidente nacional do União Brasil, o ex-prefeito ACM Neto, que já garantiu o fechamento de sua própria chapa majoritária para março.

Crise do Banco Master e herança no Banco Central

Sobre as investigações envolvendo o Banco Master, Rui Costa foi enfático ao atribuir novamente a origem do problema à gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). “Em fevereiro de 2019, o BC disse que ele não tinha condição financeira. Em outubro, mudou o parecer e autorizou. O que aconteceu em poucos meses?”, questionou o ministro. O petista negou categoricamente qualquer vínculo pessoal ou de parentes com o banco de Daniel Vorcaro e afirmou que participou de apenas uma reunião institucional com representantes da entidade. Rui garantiu que seu nome não aparecerá em eventuais delações premiadas. “Nunca tive contrato, nunca prestei consultoria. No meu governo ninguém será perseguido, mas ninguém será protegido se estiver fazendo coisa errada”, pontuou.

Passivo da Ebal e responsabilidade do Banco Central

​Ao ser questionado sobre as polêmicas que envolvem a rede de supermercados Cesta do Povo e o braço financeiro que dela surgiu (Credicesta), Rui Costa defendeu a desestatização realizada em sua gestão. O ministro contextualizou que a Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), criada na década de 70 durante o governo de Antonio Carlos Magalhães (1927-2007), havia perdido sua função social e se tornado um “sumidouro de recursos públicos”. Segundo o ministro, a estrutura foi inflada por disputas políticas locais da época — citando o embate histórico entre o carlismo e o grupo Paes Mendonça — e acumulou dívidas impagáveis ao longo das décadas. ”Para a população não ter dúvida e acabar com essa conversa fiada: a Bahia vendeu uma rede de supermercados que só dava prejuízo. No último balanço que analisei, entre 2015 e 2016, o rombo acumulado nas gestões de Jaques Wagner e na minha já passava de R$ 1 bilhão. O Estado não deve gerir supermercado, e manter aquilo era como sustentar um carro velho que só dá gastos. Fizemos o leilão, vendemos o ativo e encerramos o dreno de dinheiro público”, explicou. Rui Costa utilizou uma analogia direta para separar a venda do ativo comercial das irregularidades apontadas recentemente em operações financeiras de crédito consignado ligadas à marca. O petista argumenta que, após a privatização, a fiscalização de qualquer instituição financeira que utilize o nome ou a estrutura da antiga rede é de competência exclusiva de órgãos federais. ”Se você vende um carro e, 8 anos depois, o novo dono causa um acidente dirigindo sem habilitação, a culpa não é de quem vendeu. Eu não sou fiscal de trânsito. Da mesma forma, quem tem o dever de fiscalizar o funcionamento de bancos e operações de crédito? É o Governo do Estado ou o Banco Central? As responsabilidades devem ser apuradas, mas, na minha opinião, o nome que está sendo mais poupado nessa história é o de Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central. É ele quem detém o poder e a obrigação de vigiar o sistema financeiro.”

Crítica ao mercado e papel da Petrobras

Ao abordar a alta da gasolina e do diesel, Rui Costa criticou o atual modelo de mercado e a venda de ativos da Petrobras em governos passados. Para o ministro, a saída da estatal do setor de distribuição retirou o parâmetro de preços, permitindo que distribuidoras privadas ampliem margens de lucro sem repassar reduções aos consumidores. “O botijão sai a R$ 37 e chega a R$ 150. Mais cedo ou mais tarde, a Petrobras precisa voltar para a distribuição”, defendeu. O ministro descartou riscos de greve de caminhoneiros, citando a abertura de linhas de crédito para renovação de frotas e o diálogo constante com a categoria. Ele associou a volatilidade dos preços à conjuntura internacional e conflitos geopolíticos, reforçando que o governo federal adotou medidas paliativas, como a zeragem de impostos federais e subsídios temporários, para conter a inflação energética.

Cenário eleitoral de 2026 na Bahia

​Questionado sobre um possível desgaste do grupo governista após décadas no poder e o fortalecimento da oposição liderada por ACM Neto, o ministro Rui Costa também negou a tese de enfraquecimento. Para ele, o cenário atual é mais favorável ao PT do que o enfrentado em 2022. ”Não reconheço [o desgaste]. Pelo contrário, a situação da oposição hoje é muito mais difícil do que foi em 2022. Naquela época, o Jerônimo [Rodrigues] era um candidato que nunca havia disputado sequer uma eleição para síndico ou vereador, enquanto o nosso adversário aparecia com quase 70% das intenções de voto. Tivemos que apresentar o candidato, mostrar a capacidade dele e conseguimos reverter o quadro. Quem lidera por muito tempo acaba atraindo apoios por conveniência, muita gente migrou para o lado de lá achando que eles ganhariam”, explicou. “Agora, o cenário é de empate técnico nas pesquisas e eles perderam muito apoio no interior. Além disso, há o desgaste da gestão deles na capital, que já dura 16 anos. Salvador tem a pior educação infantil e a pior oferta de creches entre todas as capitais do Brasil. Em 2026, vamos comparar os resultados de 16 anos deles na prefeitura com os nossos no Governo do Estado”, completou o petista.

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